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  • Henrique Junior

#9 Coleta de campo: Gaviões são bons vizinhos para beija-flores

Se você é mãe ou pai, certamente há de concordar que é essencial escolher um lugar seguro para criar seus filhos. No mundo das aves, certamente essa escolha é levada ainda mais a sério, afinal, a predação de ninho é uma realidade com a qual todas as espécies têm de conviver e que comprovadamente tem moldado as distribuições espaciais das aves reprodutoras, tornando a escolha de um local adequado para nidificar imprescindível para o sucesso reprodutivo.


Algumas espécies, como as marias-leque (Onychorhynchus swainsoni), escolhem galhos finos sobre riachos, o que dificulta que predadores maiores consigam acessar esses locais para predar ovos e filhotes. Outras aves, como os guaxes (Cacicus haemorrhous), optam por nidificar em colônia, criando um mecanismo de vigilância bastante eficaz. Já os quero-queros (Vanelus chilensis) dispensam qualquer grande estrutura, apostando na camuflagem tanto dos seus ovos, que são depositados diretamente no solo, geralmente em uma área gramada, quanto dos filhotes, além de exercer vigilância incansável sobre o território do seu ninho, enfrentando com valentia qualquer possível ameaça a sua prole, independentemente do tamanho dessa.


Mas como se defender de predadores quando se tem apenas 9 cm de comprimento e se pesa menos que uma moeda de 10 centavos? Para o beija-flor-de-garganta-preta (Archilochus alexandri), a melhor defesa tem sido terceirizar a vigilância da área.


Em estudo realizado no ano de 2009 por Harold Greeney e Susan Wethington, foi constatado que beija-flores que escolheram como vizinhos ninhos ativos de açor (Accipiter gentilis) e de falcão-do-tanoeiro (Accipiter cooperii) obtiveram maior sucesso reprodutivo, sofrendo bem menos com predação do que ninhos feitos em áreas distantes desses.


Estudo mostra que beija-flores que nidificaram próximo a ninhos de rapinantes obtiveram mais sucesso ao criar seus filhotes.
Estudo mostra que beija-flores que nidificaram próximo a ninhos de rapinantes obtiveram mais sucesso ao criar seus filhotes. Foto rapinante por Pixabay - beija-flor por Freepik.com .

Para essa estimativa, os pesquisadores mediram as distâncias entre 61 ninhos de beija-flores-de-garganta-preta e dois ninhos de aves de rapina situados no mesmo território e estimaram as datas de nascimento dos filhotes de beija-flores pelo estado de sua plumagem. Após dias de monitoramento, foi possível perceber que ninhos de beija-flores situados num raio de até 300 m de distância de um ninho ativo de ave de rapina foram muito mais bem sucedidos do que ninhos a uma distância superior a 300m.


Para um beija-flor, a lista de possíveis predadores de ninho é gigantesca, e vai desde outras aves, como corvídeos e cuculídeos, até pequenos mamíferos, répteis e até mesmo gatos domésticos. A presença de um ninho de predadores tão eficazes como os açores certamente faz com esses animais predadores de ninhos e filhotes se afastem desse território. Com isso, o ambiente aparentemente hostil para a grande maioria das aves dá ao pequenino beija-flor a tranquilidade que necessita para incubar seus ovos e cuidar dos seus filhotes sob a constante vigilância dos patrulheiros de garras que aparentemente não apresentam nenhum interesse no seu vizinho de apenas 3 gramas.


Referências bibliográficas


  1. Harold F. Greeney and Susan M. Wethington "Proximity to Active Accipiter Nests Reduces Nest Predation of Black-Chinned Hummingbirds," The Wilson Journal of Ornithology 121(4), 809-812, (1 December 2009). https://doi.org/10.1676/08-174.1



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