Vida das aves

#Vida das aves 2: Estratégias de caça das aves de rapina brasileiras

Aves de rapina como caçam

A guerra entre predador e presa é travada diariamente em todos os rincões do maior campo de batalha: a Terra. Nesse duelo um dos contendores tem que ser derrotado para que o outro sobreviva. Se ninguém morrer, ninguém sobrevive, por mais contraditória que seja essa assertiva. E dificilmente há empate, um resultado que significaria a derrota de ambos os lados. As fronteiras entre vida e morte são bastante sutis e pouco conspícuas no universo animal.

São complexas as táticas de batalha utilizadas por diferentes guerreiros. Alguns preferem perseguir o inimigo e derrotá-lo em campo aberto. Outros preferem armar emboscadas e abater transeuntes desavisados. Aves de rapina capturam das mais variadas presas, desde pequenos insetos até mamíferos de médio porte. E as estratégias de caça são tanto quanto diversificadas.

Algumas espécies perseguem ativamente as presas em voo, capturando-as ao vencer uma corrida de vida ou morte. A presa, geralmente um inseto, uma ave, ou um morcego, corre o máximo que pode para manter-se viva; o rapinante, por seu lado, corre o máximo que pode para não morrer de fome. Essa técnica é comumente empregada por falcões, que são geralmente muito ágeis em voo, chegando a realizar mergulhos aéreos a velocidades de até 300 km/h para capturar aves em voo [1] . Gaviões, como o sovi (Ictinia plumbea) caçam insetos ativamente em voo [2].

Outros rapinantes utilizam-se de correntes térmicas para planar alto com pouco gasto de energia. Lá de cima assistem tudo cá embaixo, procurando por potenciais presas. A águia-pescadora (Pandion haliaetus) voa sobre a água, localizando peixes que nadem próximo à superfície, ou mesmo no fundo em água rasa. Localizada a presa, desce em um mergulho aéreo, mantendo as asas coladas ao corpo. Os pés são esticados para frente no momento de capturar a presa, o que é feito arrebatando o peixe da superfície com as garras ou mergulhando o corpo parcialmente na água. [3]

Aves-de-rapina-caçando

Muitos gaviões florestais sobrevoam a floresta, arrebatando aves desavisadas no dossel. Outros, como os gaviões do gênero Circus, voam baixo sobre campos ou pântanos, arrebatando a presa que avistar no solo ou sobre a vegetação baixa. Alguns habitantes de ambiente aberto utilizam-se de técnicas que lhes possibilitem planar parado. O gavião-de-rabo-branco (Geranoaetus albicaudatus) posiciona-se contra o vento e mantém-se parado, apenas controlando sua posição. De olhos fitos no solo, desce sobre a presa como se se deixasse desprender das correntes de ar que o sustentavam levitando. O gavião-peneira (Elanus leucurus), por sua vez, peneira, movimentando as asas freneticamente para se manter estático no ar enquanto vasculha o solo com os aguçados olhos.

A economia de energia é muito importante quando o alimento não está parado em uma prateleira. Para sobreviver, as aves de rapina têm que encontrar e capturar um alimento que também está buscando a própria sobrevivência e não se deixará ser vencido facilmente. Assim, muitas espécies adotam técnicas de caça que não lhes exija uma exaustiva perseguição à presa: é a técnica senta-e-espera. A partir de um pouso, o predador apenas espera até que sua presa passe por perto, arremetendo-se sobre ela. O pouso muitas vezes é um galho ou uma estaca.

Alguns falcões (Micrastur) e gaviões (Accipiter) florestais emboscam as presas próximo às fruteiras que frequentam, permanecendo escondidos estrategicamente em um poleiro. Outros seguem correições de formigas e bandos de mamíferos, principalmente macacos, que desalojam muitos insetos e outros animalejos. As correições são frequentemente seguidas por aves diversas, que se aproveitam das presas que tentam desesperadamente escapar do batalhão de mandíbulas. Os rapinantes insetívoros juntam-se às aves na captura aos invertebrados, e os ornitófagos aproveitam-se das aves que têm sua atenção voltada ao fervilhar de presas no solo.

Incêndios também são situações bem cotadas por rapinantes oportunistas. O fogo consome e mata tudo que não é esperto o suficiente para fugir. Animais mortos, moribundos ou em desespero para sobreviver às chamas são presas fáceis. Rapinantes de diversas espécies congregam-se às vezes em números elevados próximo aos incêndios. O gavião-de-rabo-branco (Geranoaetus albicaudatus), o gavião-caboclo (Heterospizias meridionalis) e o carcará (Caracara plancus) são dos exemplos mais comuns. Esse último é bem conhecido por aproveitar-se também de carcaças de animais ao lado de urubus, especialmente atropelados em rodovias [4].

Ectoparasitos, como carrapatos, são bastante incômodos, e ter quem os retire seria uma ideia bem agradável. Pois há quem o faça com prazer. Carrapateiros (Milvago chimachima) são constantemente vistos pousados sobre o gado que remói deitado sob uma sombra qualquer. Eles retiram os ectoparasitas dos animais e os comem, relação que beneficia ambos os lados. [5] Na Amazônia, o gavião-de-anta (Daptrius ater) pousa-se sobre antas, veados e capivaras para realizar esse nobre serviço.

Como as aves de rapina cacam

Talvez a mais intrigante adaptação de qualquer ser vivo seja o mimetismo. Rapinantes valem-se disso para enganar presas e predadores. O gavião-urubu (Buteo albicaudatus) assemelha-se bastante a um urubu do gênero Cathartes, compartilhando até mesmo o estilo de voo. Isso lhe permite aproximar-se de aves sem que essas suspeitem de algum perigo. Plana por sobre a vegetação e atira-se sobre a presa desavisada.

Muitos rapinantes jovens assemelham-se na coloração da plumagem a adultos de espécies mais poderosas. O gavião-de-cabeça-cinza (Leptodon cayanensis) apresenta coloração típica quando adulto, mas, quando jovem, a plumagem, polimórfica, pode assemelhar-se à de um gavião-pato (Spizaetus melanoleucus) (morfo claro) ou à de um gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) (morfo escuro). A aparência de um gavião-de-penacho parece ser a mais cotada entre os rapinantes miméticos. É imitada também pelo jovem tauató-pintado (Accipiter poliogaster).

Há quem afirme que o gavião-caracoleiro (Chondrohierax uncinatus) é mimético em todas as fases da plumagem, sendo que o jovem imita um falcão-relógio (Micrastur semitorquatus) jovem morfo claro, a fêmea imita um falcão-relógio jovem morfo escuro e o macho imita um gavião-pedrês (Buteo nitidus). Mimetismo ou mera semelhança? Eis a questão. De qualquer forma, são características intrigantes.

Com uma ou outra técnica de caça, todos os rapinantes estão bem adaptados e equipados para matar. E suas presas também estão adaptadas para evitar serem mortas. De forma que a luta é acirrada e eterna, e a sobrevivência de ambos os lados é assegurada por ela. O sobreviver e o perecer estão em equilíbrio constante, e isso eterniza as relações entre predador e presa.

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Biólogo, mestre em Zoologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, tem por hobby a observação de aves, a produção literária, o estudo da linguística e o aprendizado de línguas. Já publicou artigos na revista Atualidades Ornitológicas e no E-bird Brasil. Já trabalhou com monitoramento de aves em ambiente aeroportuário. Hoje em dia, trabalha com monitoramento de aves em áreas de Mata Atlântica e é responsável pela RPPN Fazenda Macedônia, de propriedade da Cenibra, e pelo Projeto Mutum, um projeto de reintrodução de aves ameaçadas de extinção.