Como ajudar uma ave

#2 Ornitodicas – Não tire o passarinho da chaminé!

Ano após ano são recorrentes nos grupos de identificação e observação de aves os relatos de passarinhos que foram “resgatados” de dentro da chaminé.

Com a chegada do verão, em especial no sul do país, diversas pessoas aproveitam o desuso da lareira para limpar as suas chaminés, e, quando o fazem, eis que vem a surpresa: um passarinho, ou uma família de passarinhos, aparentemente perdido no interior da chaminé.

Se você já passou por essa experiência, é quase certo que esteve diante de uma das aves de hábitos mais curiosos que existe: os andorinhões.

Para um observador que desconhece os hábitos dessa ave, é fácil ser levado a pensar erroneamente que elas precisam de sua ajuda. Isso acontece em especial por alguns motivos básicos.

  • Sua curiosa disposição de dedos: Diferentemente da maioria das aves, os andorinhões e taperuçus não possuem hálux, o dedo oposto que exerce nas aves função semelhante à que o polegar exerce nos humanos. Seus pés são pamprodáctilos (pan: tudo; pro:para frente; dactylos: dedo; significando todos os dedos para frente)Com esses pés especiais os andorinhões conseguem fazer o que nenhum outro grupo de aves faz: se pendurar em superfícies completamente verticais, podendo fixar nelas seus ninhos e até mesmo dormir agarrado a um rochedo ou no interior da chaminé. Em contrapartida, é impossível para essas aves pousar em um galho horizontal, já que a ausência de um dedo opositor faz com que a ave não consiga se agarrar ao galho, perdendo facilmente o equilíbrio.
  • Suas pernas: O formato e musculatura das pernas dessa ave fazem com que seja impossível que ela dê saltos na vertical a partir do solo. Por este motivo não conseguem alçar voo a partir do chão, precisando obrigatoriamente estar em um local alto, preferencialmente vertical, para alçarem voo.
  • Asas completamente diferentes da maioria das aves que estamos habituados a ver: Os andorinhões são verdadeiros mestres do voo. Graças às adaptações no seu corpo, essas aves podem voar por até duas estações consecutivas sem precisar pousar. Suas penas primárias extremamente alongadas e suas penas secundárias reduzidas os permitem realizar as mais extravagantes façanhas, como voar em plena tempestade, onde qualquer outra ave dificilmente sobreviveria, e atravessar, com suas asas pontiagudas tal qual lâminas afiadas, até mesmo cortinas d’água, fazendo com que essas insólitas aves com asas de bumerangue consigam acessar lugares tão remotos que nenhum predador alado poderia lhes incomodar. Devido a este curioso formato de asa, um observador que desconheça essas adaptações poderia concluir erroneamente que essas aves apresentam alguma anomalia nas asas, como falta de penas ou uma deficiência de crescimento delas.
  • Se alimentam exclusivamente em voo: Um andorinhão, com seus vôos acrobáticos, pode capturar grande quantidade de insetos utilizando apenas sua descomunal abertura de boca. Em contrapartida, são incapazes de capturar um inseto pousado ou de parti-lo com o bico. Por essa razão, quando manipuladas, essas aves dificilmente aceitam ser alimentadas.

O que fazer ao encontrar um andorinhão dentro da chaminé?

O melhor a ser feito é nunca interferir.Essas aves escolheram sua chaminé por acreditar que ali seja um lugar seguro para nidificarem, e, se isso se consumar, provavelmente voltarão na próxima temporada. Imagine o privilégio, ter um dos maiores mestres do voo dentre todas as aves, uma ave que pode voar por meses sem a necessidade de pousar, escolhendo justamente a sua chaminé para fazer seu ninho! Aproveite para observá-los, aprender com seu comportamento; não são muitas as pessoas que já puderam ver de perto essas aves com filhotes.

Não sabia dessas informações e as aves já foram removidas da chaminé, e agora?

Se forem filhotes, tente devolvê-los ao local. Essas aves, mesmo recém-nascidas, já têm a capacidade de pousar em superfícies verticais. Basta colocá-los na parede e eles conseguirão ficar presos à espera de seus pais para os alimentar. Se eles voltarem, você acabou de salvar vidas.

Já devolvi as aves para a chaminé e, mesmo após muito tempo de espera, os pais não vieram. E agora?

Nas primeiras horas, é bem difícil que uma ave abandone seu filhote, ainda que ela tenha sido retirada do local onde deveria estar. O mais comum é que ela retorne ao local e vocalize em busca de resposta de seu filhote. Se mesmo passado algum tempo o adulto não retornou, ligue imediatamente para um órgão competente para que a ave receba os devidos cuidados.

Não há na minha cidade CETAS ou qualquer órgão competente que possa cuidar da ave, o que eu poderia fazer para salvá-la?

Nesse caso é melhor ir se preparando. Essas aves possuem uma dieta extremamente difícil de ser mantida em cativeiro. Quanto mais jovem for o indivíduo, menor é a chance de sobrevivência dele. Nos primeiros meses de vida, essas aves são totalmente dependentes do cuidado parental, tanto para se alimentar quanto para adquirir deles a mesma habilidade de vôo que possibilitará uma vida saudável. Sendo assim, encare o fato de que seu esforço pode não ser suficiente para fazer com que o indivíduo possa sobreviver por conta própria, e, quando muito, você poderá dar-lhe uns dias de vida a mais.

  • Condicione a ave num local apropriado: como dito acima, essas aves pousam exclusivamente na vertical. Sendo assim, você poderia providenciar uma caixa de papelão e colocar em sua parede uma toalha ou fazer na lateral da caixa ranhuras horizontais para que a ave consiga se segurar. Cuide para que a ave não toque suas penas de voo no piso da caixa; isto poderia danificar as penas e fazer com que ela não consiga mais voar por um longo período.
  • Alimentação: Essas aves são exclusivamente insetívoras, e bastante seletivas quanto a isto.Por isso, papinhas para filhotes não são recomendadas.Uma ave como esta dificilmente poderia sobreviver por um longo tempo ingerindo apenas papinha para filhotes. O ideal nesse caso é ministrar uma dieta revezando entre tenébrios e insetos, como grilinhos, borboletinhas e outros pequenos insetos que você precisará caçar para alimentá-los. Apesar de ser uma boa fonte de proteínas, tenébrios não têm nutrientes suficientes para a sobrevivência da espécie, além de serem demasiadamente gordurosos, por isso é altamente necessário que você introduza na alimentação dessas aves pequenos insetos, cuidando de dar porções que possam ser engolidas inteiras.
    Como já abordado, essas aves não se alimentam quando estão pousadas, por essa razão, podem rejeitar o alimento. Nesse caso, segure a ave e abra o bico, introduzindo assim os tenébrios ou outros insetos até o fundo da cavidade bucal. Pode ser que a ave rejeite o alimento por várias vezes, então será necessária bastante paciência para fazê-lo. Para facilitar, poderia também dar um pouco de água com uma seringa. À medida que a ave for se habituando, com certeza isso tornará a alimentação mais fácil. Lembre-se de que é necessário fazê-lo ao menos três vezes ao dia, e, em indivíduos muito jovens, de duas em duas horas. Pode ser extremamente desgastante capturar uma quantidade de insetos suficiente para manter uma única ave dessas. Lembre-se que, no caso de um filhote, você deverá fazer isso por pelo menos três meses.
  • Exercícios: para que uma ave como essa possa ser devolvida à natureza, é essencial que ela esteja com seus músculos plenamente desenvolvidos. Assim, antes de alimentá-la, é aconselhado que a ave seja segurada pelas patas (com bastante cuidado, pois são bastante frágeis) e que se faça movimentos para cima e para baixo, estimulando-a a bater suas asas.
  • Mínimo de contato possível com humanos: para ser devolvida à natureza, quanto menor o contato da ave com humanos, melhor. Sendo assim, limite o contato com a ave apenas aos momentos de alimentação e exercício, e, preferencialmente, faça isso sozinho.
  • Higiene: Para o sucesso da reintrodução, é vital manter uma boa higiene do local onde está o espécime. Sempre forre o piso da caixa onde a ave está com jornal e realize a troca dele todos os dias.

Para finalizar, ressaltamos que a condição ideal de uma ave é sempre em liberdade e que todo cuidado deve ser ministrado por profissionais. Sendo assim, só tente recuperar uma ave por conta própria na ausência de outra solução. Também vale ressaltar que apenas 3 em cada 10 filhotes de aves chegam à idade adulta. Em algumas espécies, esse número chega a ser ainda menor. Isso é perfeitamente normal, logo, não se sinta culpado se, após ler o artigo, decida que o melhor seja não interferir e deixar o filhote entregue à própria sorte. Ele provavelmente servirá de alimento a outras aves ou mamíferos que dependem justamente dessas perdas para a sobrevivência. Além do que um andorinhão condicionado por humanos dificilmente adquirirá o condicionamento ideal para uma vida normal.

Já teve alguma experiência com essas aves? Conte para a gente! Gostaríamos muito de saber se houve um final feliz. Aproveite e deixe aqui seu comentário sobre o que achou do artigo.

Referências:

  • Sick, H. (1997) Ornitologia brasileira. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 862p.
  • Fonseca, M. (2014). Crias de Andorinhão: O Que Fazer Se Encontrar Uma – Mundo dos Animais.  Disponível em: <https://www.mundodosanimais.pt/aves/crias-andorinhao-o-que-fazer/> Acesso em: 26 Jan 2018.
  • Chantler, P. (2018). Swifts (Apodidae). In: del Hoyo, J., Elliott, A., Sargatal, J., Christie, D.A. & de Juana, E. (eds.). Handbook of the Birds of the World Alive. Lynx Edicions, Barcelona. (retrievedfrom https://www.hbw.com/node/52266 on 26 January 2018)

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Arquiteto e Urbanista, Ilustrador, e há 4 anos observador de aves. Também apaixonado por artes, juntou na ilustração ornitológica suas duas grandes paixões, o desenho e as aves. Além das periódicas saídas para observação de aves, utiliza também da internet como meio de troca de experiências e aprendizado sobre as aves, administra atualmente diversos grupos como o Faceaves, Identificação Ornitológica e Anjos Alados. Também é representante do COA Aves do Vale do Aço e membro da Ecoavis. Como ilustrador já participou de feiras e exposições em sua região e teve seu trabalho em destaque na revista Atualidades Ornitológicas 190.