Coleta de campo

#6 Coleta de Campo – Mobbing: quando a união supera a força do predador

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O canto do caburé soa na floresta como buzina de guerra. Viaja pelos vales como que desafiando um batalhão à peleja. De todos os recantos do capão saem passarinhos ávidos para a luta. Saíras, piolhinhos, pula-pulas, ferreirinhos: pequenos, mas valentes. Alinham o exército para a batalha contra um único soldado, grande e perigoso. Soldado esse que é conhecido por ceifar a vida de muitos passarinhos, usando-se de armas poderosas para agarrá-los, matá-los e devorá-los.

Mas os passarinhos não se intimidam e, com união, têm força. O inimigo permanece firme como um bastião a princípio; não se intimida facilmente. O caburé, como todo predador, tem uma carta na manga. A natureza lhe deu disfarces insólitos: sua nuca é ornada por dois grandes olhos negros, maior do que aqueles amarelos que residem na face circular. Apesar de não enxergarem, esses olhos negros enganam os pequenos combatentes, levando-os às vezes a temer desferir um ataque. Afinal, o inimigo lhes parece todo olhos. Acontece mesmo de os passarinhos procurarem a nuca direto na boca do bicho. A natureza às vezes prega peças. Mas, com as constantes investidas, o caburé acaba por se render e procurar outro sítio onde possa entoar sossegado seu canto amedrontador.

mobbing_cabure glaucidium brasilianum

Ilustrações por Frederico Blanco/ Revista Uru

Destemidos como os valentes dos reis da antiguidade, alguns passarinhos, esquecendo-se de seu pequeno tamanho, enfrentam os mais corpulentos dos rapinantes. Não é raro ver um suiriri sozinho atacando em voo, com seguidas investidas no dorso, um grande carcará. Beija-flores, moldados para a delicadeza das flores, se convertem em verdadeiros guerreiros e enfrentam grandes gaviões, ainda que, ocasionalmente um desses pequenos valentes acaba por transpor a distância de segurança e ser tragado pelo poderoso oponente.

O mobbing é um comportamento realizado pelas presas para se livrar de um potencial predador. Os passarinhos fazem a maior algazarra, dando alerta da presença do inimigo. Em pouco tempo, um grande bando se forma em volta do perigo. Mas, por que se aproximar do perigo? Há um ditado que diz: “Mantenha seus amigos perto, mas seus inimigos mais perto ainda”. Bem, se você vê seu inimigo, pelo menos do ataque surpresa você o desarmou. Mas os passarinhos não se contentam em diminuir as armas do inimigo. Eles querem enxotá-lo. E, depois de diversas investidas, eles, por fim, o conseguem.

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Biólogo, mestrando em Zoologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, tem por hobby a observação de aves, a produção literária, o estudo da linguística e o aprendizado de línguas, sobretudo indo-europeias. Já publicou artigos na revista Atualidades Ornitológicas e recentemente no E-bird Brasil.