Coleta de campo

#8 Coleta de campo: O misterioso Urutau (Nyctibius griseus)

Ave Urutau mae da lua Nyctibius griseus

Mãe-da-lua, emenda-toco, chora-lua, ou simplesmente urutau. Se tem um bicho que é capaz de causar espanto e instigar a imaginação de quem o conhece, certamente esse bicho é o Urutau. Apesar de ocorrer no Brasil inteiro e ser considerada uma ave comum, poucos são os olhos que conseguiram encontrar um urutau.

Provavelmente não existe no mundo inteiro bicho tão pitoresco quanto o urutau. Para alguns, um bicho feio, triste, até mesmo agourento, para outros, um dos seres mais fantásticos que a natureza é capaz de nos apresentar. Se pedissem a você que pensasse ou desenhasse uma ave, qualquer ave, aposto que nem de longe sairia algo parecido com o urutau. É um bicho que foge completamente ao nosso estereótipo de passarinho, e com certeza, sua beleza está exatamente nisso.

É uma ave de cabeça-chata, Olhos grandes e esbugalhados, possui uma abertura de boca descomunal, bico diminuto, bastante desproporcional ao tamanho da boca, projetada para engolir até mesmo grandes insetos em pleno voo. É de hábitos noturnos, o que justifica seus grandes olhos que possibilitam caçar até mesmo nas noites escuras.

Ao anoitecer, o urutau põe-se a emitir seu lamurioso chamado. Um canto fúnebre, quase que hipnótico, geralmente composto por quatro notas descendentes. Esse canto percorre as matas e vilas, causando estranheza e curiosidade em quem quer que o ouça. Afinal, quem seria o dono de um canto tão triste e melancólico? O que teria sofrido essa pobre ave para tamanho lamento? Não faltam teorias para isso, mas esse já é assunto pra outro texto!

“Todo o mundo dormindo. Só o chochôrro mateiro, que sai
de debaixo dos silêncios, e um ô-ô-ô de urutau, muito triste
e muito alto”
Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas,
  1956)

Áudio por Helberth Peixoto, disponível em (https://www.wikiaves.com.br/750261

Durante o dia, se empoleira de uma maneira bastante peculiar. Em geral escolhe galhos de árvores mortas ou quebrados, e se posiciona neles de maneira a se tornar uma extensão do próprio galho. E faz isso com maestria! Além de sua coloração perfeitamente adaptada para seu ambiente natural, o urutau se posiciona de bico para o alto, numa postura ereta com cauda e asas para baixo para lhe dar apoio. E nessa posição, é capaz de ficar durante horas do dia completamente imóvel, ou realizando alguns movimentos de maneira praticamente imperceptível para quem passa diante dele.

Não bastasse tudo isso, o urutau foi presenteado com uma das adaptações mais incríveis dentre todas as aves, a capacidade de enxergar com os olhos fechados. É dotado de duas pequenas aberturas na pálpebra superior, posicionadas de forma que permite ao urutau ser um exímio observador de tudo que acontece à sua volta sem sequer precisar abrir os olhos e arriscar comprometer sua camuflagem. Ele certamente sabe que é o melhor na arte de se esconder! Por isso, pousa em lugares óbvios, à vista, e confia em sua camuflagem até o último instante, por vezes, permitindo uma aproximação maior do que qualquer outra ave possibilitaria, e na maioria das vezes dá certo.

Ave Urutau mae da lua Nyctibius griseus

Até mesmo na hora de fazer seu ninho o urutau é excêntrico e minimalista. Em geral, escolhe um galho que possua alguma cavidade suficiente apenas para que o seu ovo solitário não despenque lá de cima. E ali, durante aproximadamente 30 dias o urutau choca este ovo, à vista de todos que sequer poderiam imaginar que dali nasceria um filhote.

Sua capacidade de se camuflar está no sangue, escrita cuidadosamente em seu código genético, podemos inclusive dizer que o urutau já nasce sabendo se esconder. Esse filhote, uma pequenina e pitoresca bolinha de penas brancas com um aspecto de algodão, logo nos primeiros dias assume junto à mãe sua posição característica, praticamente se misturando ao corpo dela de forma que quando muito, lembrará um outro galho quebrado. Sua camuflagem só melhora com o tempo, aos poucos a mãe vai cedendo mais espaço ao filhote até que por fim só ele vai caber no galho.

Fica por ali cerca de 50 dias, um tempo recorde entre as aves. Quer prova maior do que essa da eficácia de sua camuflagem? Após isso, esse filhote já adolescente passa a se afastar do local onde nasceu, aprendendo com os pais a se virar sozinho, até que por fim partirá sozinho para seu novo ciclo. Ciclo este que segue despertando em nós, geração após geração grande espanto e admiração por essa ave singular!

Referências bibliográficas:

  • Sick, H. (1997) Ornitologia brasileira. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 862p.
  • Straube, F. C. (2004) Urutau: ave-fantasma. Atualidades Ornitológicas, ed. 122, p. 11-12
  • PEIXOTO, H. J. (2011). [WA750261, Nyctibius griseus (Gmelin, 1789)]. Wiki Aves – A Enciclopédia das Aves do Brasil.
    Disponível em: <http://www.wikiaves.com/750261> Acesso em: 05 Mar 2021.

 

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Arquiteto e Urbanista, Ilustrador, e há 8 anos observador de aves. Também apaixonado por artes, juntou na ilustração ornitológica suas duas grandes paixões, o desenho e as aves. Além das periódicas saídas para observação de aves, utiliza também da internet como meio de troca de experiências e aprendizado sobre as aves, administra atualmente diversos grupos como o Faceaves, Identificação Ornitológica e Anjos Alados. Também é representante da diretoria colegiada do COA Brasil, Birdwatching Vale do Aço e membro da Ecoavis. Como ilustrador já participou de feiras e exposições em sua região e teve seu trabalho em destaque na revista Atualidades Ornitológicas edições 190 e 201. Atualmente se dedica à produção de réplicas de exemplares da fauna brasileira em massa epóxi.